2005/11/30

"Longe Daqui"

Álvaro José Ferreira costuma me brindar com os seus mail, que agradeço. Desta vez enviou-me este, dirigido a Rafael Correia, que reproduzo, porque concordo com a defesa que faz da música portuguesa. Caramba! Há tanta e tão bonita música portuguesa e é um drama ouvir as nossas rádios...
"Caro Sr. Rafael Correia"
Como não perco uma das suas emissões também ouvi a de sábado passado em que conversou com um meu homónimo, criador de porcos alentejanos, algures perto de S. Pedro das Cabeças, concelho de Castro Verde, local apontado como o provável cenário da lendária Batalha de Ourique.
Delicio-me sempre com as suas saborosas conversas, mas o que me motivou a escrever-lhe, desta vez, foi ter passado o tema "Longe Daqui", de Pedro Barroso. Soube-me muito bem ouvir esta belíssima e tocante obra poético-musical, ainda mais porque já não a ouvia há longo tempo na rádio.
Como já nos habituou, o caro Rafael Correia escolheu a música muito a propósito atendendo ao lugar e ao conteúdo da música.
Devo confessar-lhe que fiquei muito contente e até sensibilizado por voltar a passar Pedro Barroso, um dos maiores vultos do nosso meio musical e que tem sido alvo de um escandaloso ostracismo pelas rádios nacionais, entre elas a rádio pública.
Faço questão de felicitá-lo por continuar a passar Pedro Barroso, José Afonso, Janita Salomé, Amélia Muge, Amália Rodrigues, Luiz Goes, Paco Bandeira, etc. porque estes nomes, entre outros de reconhecido mérito, foram incluídos num index dos proibidos de figurar nas 'play lists' da Antena 1.
É muito triste e deveras revoltante constatar que, num regime formalmente democrático, onde supostamente não existe censura, seja recusado o lugar que os artistas maiores de Portugal (vivos e falecidos) deveriam ocupar, por direito, na rádio que todos pagamos e, ao invés, sejamos insistentemente massacrados com músicas pré-fabricadas e descartáveis do género mastiga e deita fora.
Algo vai muito mal neste Portugal dito democrático!
Bem haja por continuar a facultar-nos nos preâmbulos das suas interessantíssimas conversas a audição do melhor da música de Portugal.
Força, amigo Rafael Correia!
Aceite um abraço deste seu admirador,
Ass.: Álvaro José Ferreira"

2005/11/29

A Arte (Perversa) de Argumentar!

Deixei, no blog "O Eleito", um post onde defendia a alteração do Sistema Eleitoral e a introdução da valoração da Abstenção.
O Pedro respondeu com: O Povo é quem mais referenda!
Escrevi, em cima do joelho, um comentário, no post do Pedro, que reproduzo aqui:
“Como as coisas são... (relativas)!!!
Pois eu é que me fartei de rir com tanto disparate. Mas acredito que seja perda de tempo estar a responder, no que diz respeito aos seus próprios conceitos. Quem "pensa" assim, não tem capacidade (não quer?) ouvir e avaliar, com bom senso, os argumentos dos outros. Tá bem! Haja democracia!Só que, a minha proposta não é para SUA apreciação, mas para divulgação e apreciação da população.
Ah pois! Já sei! A população não se pode pronunciar sobre isso, nem sobre nada (a não ser sobre questões menores e menos mobilizadoras), porque isso provoca instabilidade.
Decididamente temos vivido em países diferentes... Estabilidade?! Chama a isto estabilidade? Meu Deus! Você tem um qualquer problema de autismo. Vive alheado da realidade e nem sequer quer vê-la. Atão não se tá a ver tanta estabilidade?! O país tem progredido que é um regalo, com toda esta estabilidade. E os Desígnios nacionais? Os resultados de estudos e projectos e pareceres e... Não são logo levados à prática e resolvidos os respectivos problemas, com a ajuda da “nossa” estabilidade?
E a agitação social? E o descontentamento generalizado? E a descrença no futuro? E a ausência de esperança e de perspectivas?
Deixe lá, não se preocupe! São delírios meus! Isto é um país estável, desenvolvido, com um excelente nível de vida, com uma estabilidade que até chateia...
Oh meu caro! O que eu tentei enunciar foi um conjunto de propostas que, a serem adoptadas...
Pensando melhor vou responder em post, porque isto promete.Só quero sublinhar que, quando digo "você", me refiro às ideias e ao que de pérfido resulta, para a realidade, da sua adopção. Não me refiro à pessoa. Convém frisar para evitar mal entendidos...”
O Pedro apressou-se a me desafiar a que rebatesse os seus argumentos, um por um, prevenindo-me de que: “é difícil”. Não concordo!
Retomando o “discurso”
O que eu tentei enunciar foi um conjunto de propostas que, a serem adoptadas, possam resultar numa alteração da forma de fazer política, numa aproximação dos eleitos aos eleitores, COM UTILIDADE PRÁTICA PARA A RESOLUÇÃO DOS PROBLEMAS CONCRETOS, SENTIDOS PELA POPULAÇÃO.
Ao invés, os seus argumentos são um amontoado de falácias absurdas, assentes em conjecturas, caricaturas exageradas, que não conseguem esconder a sua inaptidão para “ser útil”. Daí que você sobrevalorize esta sua aptidão “inútil”… e defenda a situação actual onde esse tipo de “artes” têm boa cotação no mercado… Veja-se o exemplo do DGCI, que tem feito um trabalho deplorável, destrutivo para a sociedade, à frente da DGCI, mas que ganha cerca de 23 mil euros, apenas porque é exímio nessa arte. De vez em quando lá somos nós insultados, agredidos, com mais uma notícia, falsa, com os números “que provam a competência” do DGCI… Apetece dizer que, quem tem de se preocupar e perder tempo a inventar números para “se justificar”, não tem condições, mínimas, para fazer um bom e sério trabalho. O “meu” mercado e os meus critérios de valor são outros…
A técnica que você usou para argumentar contra as minhas propostas é muito conhecida, é velha, e já está gasta… Mas continua a fazer estragos, porque esses “argumentos”, em forma de falácias, monopolizam todo o nosso espaço de debate público, obstruindo as hipóteses de construção do que quer que seja e desesperando todos…
Vejamos então, com as suas próprias palavras, como eu tenho razão.
Começando pelo fim, você diz, tentando achincalhar: “Com esta proposta, as decisões políticas seriam as melhores, porque tomadas pelo povo sábio” (o destaque é seu).
Nós já sabíamos que, para pessoas que vivem de “argumentar”, (há muita gente dessa por aí; demais!) parasitando o labor da sociedade, só os próprios é que devem ter valor, e conhecimento e legitimidade para decidir… O povo é burro e como burro deve continuar, não tem nada que decidir de coisa nenhuma, porque não sabe fazê-lo, porque a sua missão é trabalhar para sustentar esa gente... e ser mal pago. Ora, quem serve só para isso, não deve decidir de coisa nenhuma. Depois quem é que trabalha?
Quase que nem precisaríamos de mais citações para demonstrar a perfídia de todos os argumentos do seu post… Mas eu não desisto assim tão facilmente. Nem você consegue imaginar a dimensão da minha resistência…
Nem precisaríamos de mais citações porque esta, por si só, demonstra que, para quem partilha essas ideias, o povo é o inimigo, gente perigosa… Pois eu digo-lhe que isso é pura misantropia vossa, inadaptação, incapacidade de lidar com a realidade da democracia, vocês devem tratar-se…
Mas é claro que você sabe que está, apenas, a apelar a uma certa mensagem subliminar que abunda por aí, que fomenta instintos primários e o individualismo que tanto nos destrói como nação… Aquela treta de: “a culpa é dos outros”; ou do: “há que mudar as pessoas, a partir do interior” (os anónimos, nunca quem manda e tem de mudar); ou ainda: “tudo isto é fruto da maldade humana”. Tudo isso para provocar a desconfiança mútua, entre os cidadãos, numa palavra: dividir para reinar; TRETAS de quem nada sabe construir e, por isso, se entretém a destruir… e acha que deve ser bem pago por isso, porque contribui para beneficiar quem muito ganha, chulando o país…
Neste país há mais de 8 milhões de eleitores, a quem compete decidir, quer você queira quer não. Oito milhões de eleitores dos quais a esmagadora maioria são pessoas muito dignas, uma boa parte são pessoas esclarecidas e, no conjunto, até sabem como se resolvem os nossos problemas. Mas também é facto que a maioria deles é vítima dos desmandos dos políticos… eu sei do que estou a falar… Imagine-se como um deles, ou imagine-se a conversar com cada um deles e verá que não consegue manter os seus argumentos…
O que eu não tenho dúvidas é que os eleitores sabem decidir, bem; que as decisões colectivas são dignas e adequadas aos superiores interesses do país. Não há uma única decisão, ou medida governativa criminosa que mereça o apoio ou a concordância da maioria da população.
Vá lá, faça um esforço, você consegue imaginar toda essa gente como pessoas, seus iguais (porque o são), que merecem tanto respeito e consideração como você quer para si… Essa sua dificuldade chama-se Agorafobia e tem tratamento…
No “nosso” sistema, os “eleitos” são apenas representantes desses oito milhões, com cujo veredicto se devem conformar. É isso que eu pretendo, nada mais. Ao invés, nem à verdade dos números eleitorais temos direito, porque eles são deturpados e ocultados, para “tornar aceitável” a “vigarice”.
Toda a gente reconhece que os eleitos não representam nada e que isso é o nosso maior drama, a origem de todos os nossos males, exactamente porque os restantes “eleitos” pensam como você, em relação “à gentalha ignara”. Mas o nosso drama, a vigarice da actuação dos políticos, começa na vigarice e nas mentiras em que assenta o nosso sistema eleitoral e a própria eleição, quando os abstencionistas são, pura e simplesmente, eliminados do rol dos cidadãos, de forma perfeitamente nazi. Até porque, doutro modo, gente assim não teria possibilidades de ser eleita, porque é contra natura…
Gentalha só o somos por (ainda) tolerarmos tanta infâmia, da parte de quem nos devia representar e, ao invés, se apropriou do país e dos seus recursos, que exaure em proveito próprio, sem querer prestar contas a ninguém… Portanto, é a ignomínia dos políticos que nos “emporcalha” o prestígio e a dignidade colectivos.
Mas vamos à questão principal: a questão dos custos e da exequibilidade da minha proposta:
1. O principal objectivo da proposta é moralizar a vida pública e a actuação dos políticos, criar as condições para responsabilizar quem deve ser responsabilizado, como forma de “colocar as pessoas certas nos lugares certos”, única forma de podermos progredir e ver resolvidos os nossos problemas.
2. Para suportar a “lógica” dos seus argumentos, você transformou o actual sistema, pessoas incluídas, em coisas imutáveis, num cenário de pedra, de estátuas, assim como fez com as próprias pessoas do povo. Ou seja: passamos a ter: “candidatos esfinges”; “candidatos múmias” e “argumentadores estátuas”.
3. A minha proposta é para gente viva, com inteligência suficiente para perceber a dinâmica das sociedades, a sua capacidade de mudar, de se adaptarem, de evoluírem, de aprenderem. Numa penada você enunciou os motivos profundos, inconfessáveis, que levam muita gente a apostar no “quanto pior melhor”, em matéria de insucesso escolar, de incultura, de ausência de formação tecnológica e profissional (onde se opta, sistematicamente, pela inutilidade dos conhecimentos transmitidos).
4. Com a minha proposta, o que se pretende é que as coisas mudem, que sejam eleitos os melhores, verdadeiros líderes, gente sincera e digna, com capacidade adequada para os cargos, de modo a que os problemas do país possam ser resolvidos. Candidatos assim têm de ter capacidade (antes ou depois de “mostrarem o que valem”) de mobilizar as pessoas para votarem neles, para os elegerem e se sentirem representados, coisas que hoje não acontecem. Mas você não quer nem imaginar que estes “monos” possam ser substituídos e se altere a maneira de fazer política, que haja mais honestidade, verdadeira “representatividade”. Eu acho que você sente que, nesse contexto, os seus talentos nada valem porque, objectivamente, do ponto de vista produtivo, eles nada valem, de facto. Temos pena, mas o país está primeiro! Adapte-se, recicle-se, aprenda outras coisas. Ou será que, quando você argumenta como se políticos e povo fossem imutáveis e nada conseguissem “aprender”, era devido ás suas próprias limitações? Há muita gente assim (não é o seu caso, pessoal, que me preocupa).
5. Acontecendo isso, o seu cenário dantesco, catastrófico, deixa de existir e teremos verdadeira estabilidade e progresso, sem necessidade de referendos, que permaneceriam como último recurso, em situações de crise, para inibir os abusos…
Não há estabilidade possível sem a resolução dos nossos magnos problemas. Resolvidos os problemas poderemos, então, ter boa e duradoira estabilidade, antes não. A minha proposta permite resolver os problemas; a actual situação não permite, por culpa dos políticos. Quem nos obriga e exigir formas de responsabilização credíveis, são os políticos, com a sua forma de actuar indigna, por opção própria.
Mas faço notar que, tal como acontece em qualquer conjunto de argumentos próprios de “forças de bloqueio”, você não indica uma única via segura, objectiva, para resolver os nossos problemas. Pois é! Para si e para os seus “está bem, assim”. O que você não quer é “inovação”. O tipo de argumentos que usou, são possíveis de serem usados para “arrasar qualquer proposta ou projecto.
6. Mas voltemos à estabilidade que é um tema que me apaixona! Há décadas que se ouve falar de “definir desígnios nacionais” que não fiquem à mercê dos caprichos da “alternância” governativa. (quando muda o governo, mudam todos os “nomeados” e os assuntos e projectos importantes não têm seguimento). É fácil perceber que, se esses projectos fossem referendados, isso não poderia acontecer, acabavam-se os caprichos…
7. Finalmente os gastos! É possível fazer referendos quase sem custos. Mas, é claro, com os actuais políticos, isso não acontecerá, porque não lhes convém, porque é o próprio tacho e mordomias que estão em jogo. De qualquer forma, o país não é seu, o PIB também não é seu e as pessoas, o tal povo que você abjura, mas que existe para além das eleições e que é a verdadeira razão de existir dum país, permanecem tendo o direito de decidir sobre isto tudo: se se deve ou não adoptar este sistema eleitoral.
8. Quanto ao custo dos referendos, mesmo admitindo a hipótese, absurda, de imutabilidade de todas as pessoas envolvidas (a probabilidade disso acontecer é zero), sempre lhe direi que sai muito mais barato e é muito mais útil, fazer referendos que permitam acabar com os desmandos dos políticos, do que sustentar toda a chulice actual de: deputados a mais (devem ser reduzidos para, no máximo, 150): vencimentos escandalosos pagos a incompetentes, agiotas, acumulações de reformas com vencimentos, de vencimentos com vencimentos (de cargos que as mesmas pessoas não podem exercer, a não ser que tenham o dom da omnipresença – é mais do que ubiquidade), de reformas avultadíssimas pagas a pessoas que continuam a trabalhar, que estão muito longe da idade da reforma, etc… A quantidade de recursos económicos que se poupariam é muito superior aos gastos, isso eu posso garantir
Finalmente só um pequeno comentário, acerca destas palavras do Pedro: “Deixe-me dizer-lhe que eu pertenço à população”.
É? Quem diria? Pela sua maneira de falar não se nota nada!
Mas é bom, que interiorize essa sua condição… Vai aprender umas coisas interessantes. Até porque você pertence à população, mas não é a população, não pode se substituir à população. A sua opinião é apenas uma opinião… Não se esqueça disso.
Também por isso, desculpe qualquer coisinha. São as ideias e o que representam, o mal que fazem, quando adoptadas, que me incomoda, não as pessoas ou o facto de pensarem como querem ou lhes convém…

2005/11/25

Os Bons, Os Maus E Os Agiotas!

Publicado também em "O Eleito"
Acerca do post de Pedro Cardoso
Em relação aos vencimentos e regalias dos políticos e gestores apetece-me dizer, parafraseando Eça:
- se estes são os "bons e competentes", que venham os "incompetentes".
Pedro Cardoso diz que tem de ser assim para garantir o interesse dos melhores. A julgar pelo estado, deplorável, da nossa economia, não encontraremos, nem com um milhar de candeias, um único “competente”, nesse lote. Se estes vencimentos não são para pagar competência e eficácia, então para que são?
Defender, numa altura destas, que os políticos devem ganhar mais, referindo o DGCI, como exemplo, porque “tem feito um bom trabalho” (avaliação com que eu discordo, em absoluto), dá a ideia de que, neste país, os coitadinhos dos políticos e gestores públicos ganham mal. No entanto, basta passar a fronteira para encontrarmos um exemplo dum país com melhor nível de vida e onde os políticos ganham menos que os “nossos”.
Em relação ao nível de vida, podemos dizer, sem margem para erro, que temos os políticos mais caros da Europa (e também os mais ineficientes). Assim como na Justiça, na Educação… em tudo…
Estou absolutamente contra esta forma, demagógica e retrógrada, de colocar a questão.
Os vencimentos e regalias dos políticos e gestores públicos são escandalosos, sim. E as acumulações de reformas com reformas (de valores escandalosos), de vencimentos com vencimentos, ou de vencimentos com reformas, são inaceitáveis, pérfidas, um autêntico insulto à população, que impede a resolução dos nossos problemas, até pela indignação que provoca. Na maior parte dos casos estas situações prefiguram agiotagem, gangsterismo…
Não há um único "argumento" válido, no texto do Pedro que possa justificar tal vergonha. Ao invés, há uma enorme quantidade de princípios de boas e recomendáveis práticas de gestão, modernas, que desaconselham tais situações. Para além do facto de os elevados vencimentos não garantirem (pelo contrário) a qualidade e a eficácia dos seus titulares.
Pessoas com este nível de responsabilidades públicas devem ter um mínimo de sentido de decência, de vergonha. Até ao nível internacional esta questão é abordada, em termos que, embora comedidos, revelam bem o escândalo dos autores dos comentários.
A situação económica do País não justifica tais mordomias, os desempenhos dos seus titulares muito menos, os ganhos, para o país e para a economia são nulos… Além disso, esta gente nem sequer se submete a quaisquer controlos ou mecanismos de responsabilização pelos seus desempenhos… como é que alguém pode ter a inconsciência de defender tais práticas?
Em nome de quem ou do quê?
Em nome da eficiência, da eficácia, não é; porque “isso” não existe!
Para garantir a concorrência dos melhores também não é, porque estes até são os piores, toda a gente reconhece, inclusive o candidato à Presidência Cavaco Silva!
Em nome da população também não é, porque a população (única “entidade” que devia ter o direito de decidir sobre estas questões) está contra estes escândalos, sobretudo por beneficiarem gente que não presta…

Vejamos, com calma e objectividade, os “meus” principais motivos, que se resumem numa simples e pequena frase: Estas práticas impedem o progresso e desenvolvimento do país, porque exaurem recursos que o estado não tem e porque tornam impossível a mobilização dos cidadãos para resolver os problemas, para colaborar com os responsáveis.
Na verdade, “eles” não resolvem os problemas e os cidadãos não ajudam, porque acham que não têm de ajudar a chulice. Se eles ganham tanto, eles que resolvam os problemas. Mas, em muitos casos, são os próprios que impedem a colaboração, até para “justificarem” o que ganham.
Desde a década de 80 do século passado que, ao nível das estratégias de gestão, se estabilizaram “novas técnicas” que, genericamente receberam o nome de: “Gestão por Projecto”.
Sem correcta gestão de recursos humanos, não há técnica de gestão que possa ser eficaz. Ao nível da gestão de recursos humanos, há dois factores que se têm revelado essenciais para a produtividade. São eles:
- A motivação (que pressupõe a participação, esclarecida dos trabalhadores, de modo a conquistar o seu empenho);
- A colocação das pessoas certas nos lugares certos.
A gestão por projecto pretende maximizar esses dois factores e pode ser descrita, resumidamente, da seguinte forma:
Constituição de “equipas de projecto” a cujas são entregues tarefas específicas, com objectivos pré-determinados. É claro que os objectivos devem ser passíveis de obter o empenho dos trabalhadores envolvidos.
Nestas equipas, as tarefas de coordenação são rotativas (até como forma de conhecer os melhores “talentos”), embora se reconheça que, ao fim de algum tempo, pode acontecer que as equipas passem a entregar estas tarefas apenas a alguns, se isso for importante para alcançar os objectivos.
Por mais patranhas que os falaciosos inventem, não há forma de constituir equipas, em perfeita sintonia e cooperação, para colaborar com gente que ganhe vencimentos escandalosos, muito acima da média, enquanto que outros se matam a trabalhar para nem sequer terem com que suprir as necessidades básicas, suas e dos seus…
Para quem tenha um mínimo de inteligência e de honestidade intelectual, é fácil perceber que também a solidariedade institucional, no país, deve envolver todos os cidadãos e obedecer às mesmas "técnicas de gestão" e de motivação; e que a existência desses vencimentos, dessas mordomias, é um entrave à resolução dos problemas.
Curiosamente, a evidenciar bem o primarismo, a ignorância, a falta de “inspiração”, dos nossos políticos e economistas, as “estratégias” seguidas para “resolver” as crises, são, ainda e sempre, as “ideias” velhas e ultrapassadas, de Keynes… (na sua versão portuguesa: apostas no betão), cujos resultados desastrosos estão à vista de todos.
De facto, ao invés de se constituírem equipas motivadas pelos objectivos, o que se vê, neste país, é trabalhadores desmotivados e mal pagos submetidos a cumprir ordens, quantas vezes absurdas e más, dadas por gente que ganha demais, para se entreter a fazer asneiras e a destruir… Que se entretém, pelo menos, a impedir a resolução dos problems do país, é óbvio...

É assim a ausência de cultura, de capacidade de raciocinar dos nossos notáveis. Só sabem “adoptar” soluções feitas, empíricas, e mesmo assim muito velhas, porque as suas pobres cabeças não dão para mais. As coisas “teorias” modernas e eficientes, que podem, de facto, resolver os nossos problemas, eles desconhecem; até porque exigem um pouco mais de nível intelectual e de competência, não são coisas ao seu nível de “burgessos”. Burgessos, convencidos, presunçosos, é o que "eles" são. Ciosos das suas ordens (e falsos prestígios), cuja legitimidade provém, exactamente, dos respectivos vencimentos e não da sua bondade ou adequabilidade…
Os que reivindicam vencimentos desmedidos não estão interessados nas condições para resolver os problemas, apenas estão interessados nos seus vencimentos. Depois, para se “justificarem”, exibem-se como se fossem “Messias”, favorecidos por inspiração e poderes divinos, a quem baste falar… para que tudo se resolva. E se não resolve, a culpa é dos outros, porque eles já disseram…
É de deitar as mãos à cabeça! Como é que ainda há gente a pensar que as sociedades modernas podem aceitar ou tolerar isto!?… Bem se vê que ninguém (de entre estes) está interessado em inovação, ou em melhoria do nível de formação tecnológica e profissional. Só estão interessados enquanto isso der para ganhar uns trocos em “seminários”. Conversa e mais conversa; é do que é feita a “competência” nacional, instituída.
Na verdade, estes políticos e notáveis, não têm competência, nem instrução, nem nível intelectual. Por isso nem sequer conseguem reconhecer as soluções, mesmo que tropecem nelas todos os dias.
Há formas, métodos de actuar, que permitem chegar às soluções (porque elas existem, na sociedade). Mas não se espere, de gente tão tacanha e presunçosa, que os adoptem, ou que eles resultem, porque esta gente “não vê um boi”…
Talvez seja melhor mesmo que os vencimentos dos políticos e gestores baixem, para que os cargos deixem de ser tão cobiçados e possam ser exercidos por gente com a motivação certa; a qual seja: conseguir resolver os problemas do país… pelo país…
Mas eu não defendo, em absoluto, a redução dos vencimentos dos políticos e gestores públicos. O que eu defendo é que devem ser estabelecidos (decididos através de consulta à população) limites superiores de vencimentos, indexados ao vencimento mínimo. Por exemplo: o vencimento máximo não poder ser superior a dez ou doze vezes o salário mínimo… Assim é que é democracia e se criam as condições para a efectiva solidariedade nacional.
Por outro lado, os responsáveis até poderiam ganhar 15 mil euros… desde que o vencimento mínimo fosse de mil e quinhentos euros…
Acabava-se a chulice de os que mais destroem e menos valem serem os que mais ganham. E veriam como os nossos políticos e gestores correriam atrás das soluções para o País, em vez de "ignorarem", como fazem agora.
Mas, é claro, poderemos chegar a tudo isso se se reduzir o número de deputados e se se valorar a abstenção… porque assim é que é democracia (e boa gestão). É apenas uma outra forma, mais demorada talvez, de atingir o mesmo objectivo…